Emilia Pérez e a representatividade no Oscar: vamos falar sobre visibilidade trans?

Representatividade trans no cinema

O filme Emília Perez, ganhador do Globo de Ouro e indicado ao Oscar, conta a história de um chefe de cartel que transaciona de gênero para ter a chance de mudar de vida. A protagonista é interpretada por Karla Sofía Gascón, a primeira mulher trans a ser indicada ao Oscar, concorrendo na categoria de melhor atriz com nossa amada Fernanda Torres e outros célebres talentos internacionais.

Apesar do musical não ser uma boa representação da comunidade trans – dentre outras críticas – esta é uma excelente oportunidade para falarmos sobre a visibilidade e reivindicação de direitos das pessoas trans e travestis.

Conheça alguns conceitos básicos:

O que são pessoas trans?

Pessoas trans (ou transgênero) são aquelas cuja identidade de gênero é diferente do sexo que lhes foi atribuído ao nascer. Isso significa que uma pessoa trans pode ter sido designada como um determinado gênero ao nascer, mas se identifica e vive como um gênero diferente.

Ser trans não depende de cirurgias ou tratamentos hormonais, pois a identidade de gênero não está ligada a alterações no corpo, mas sim à forma como a pessoa se percebe e se expressa no mundo. O reconhecimento e o respeito à identidade de gênero são fundamentais para garantir os direitos e a dignidade das pessoas trans.

O que são pessoas travestis?

Travesti é uma identidade de gênero específica dentro do espectro trans. Ou seja, pessoas travestis, são pessoas trans, embora muitas travestis prefiram ser mencionadas separadamente, pois a identidade travesti tem uma história, cultura e luta política próprias, especialmente na América Latina.

As travestis são, em sua maioria, pessoas designadas como masculinas ao nascer, mas que constroem uma identidade feminina única, com elementos próprios de vivência e resistência social.

A identidade travesti não se confunde completamente com a de mulheres trans, pois possui características culturais, políticas e históricas específicas. Muitas travestis rejeitam a ideia de que precisam se adequar ao padrão binário de gênero (homem/mulher) e, em vez disso, afirmam sua identidade de forma autônoma.

Transgênero ou transsexual?

O termo “transsexual” tem sido historicamente utilizado para se referir a pessoas transgênero que desejam ou realizam mudanças físicas para alinhar seu corpo à sua identidade de gênero.

Contudo, este termo está em desuso, pois cada pessoa trans vive um processo de transição único e a identidade de gênero não depende da realização de cirurgias ou tratamentos hormonais. Dessa forma, o uso de terminologias como “pessoa trans” ou “transgênero” é considerado mais inclusivo e respeitoso.

O que é transição de gênero?

A transição de gênero é o processo pelo qual uma pessoa passa para adequar sua apresentação de gênero à sua identidade de gênero.

A apresentação de gênero é a maneira como uma pessoa expressa seu gênero por meio da aparência, comportamento e estilo. Isso pode incluir roupas, corte de cabelo, voz, linguagem corporal e até mesmo o nome e os pronomes que escolhe usar.

Esse processo pode envolver mudanças sociais – como a adoção de um novo nome, pronomes e estilo de vestir, além da atualização de documentos para refletir essa identidade. Algumas pessoas também optam por mudanças físicas e intervenções médicas – como terapia hormonal e cirurgias – embora isso não seja necessário para todas. Cada transição é única, acontecendo no ritmo e da maneira que faz mais sentido para a pessoa.

O que é transfobia?

Transfobia é qualquer forma de preconceito, discriminação, violência ou exclusão contra pessoas trans e travestis. Isso pode acontecer de maneira explícita, como agressões físicas e verbais, ou de forma sutil e estrutural, como a falta de acesso a direitos básicos, ao mercado de trabalho e ao respeito à identidade de gênero.

A transfobia no Brasil

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Lamentavelmente, ocupamos esse posto há 16 (dezesseis) anos consecutivos, de acordo com os dados do projeto Transrespect versus Transphobia Worldwide, desenvolvido pela Transgender Europe. Enquanto a expectativa de vida geral da população brasileira é de mais de 76 anos, para uma pessoa trans a expectativa é de 32 anos (BENEVIDES, 2025, p.72). Em 2024, 49% das pessoas mortas por transfobia no Brasil eram jovens (18 a 29 anos) (BENEVIDES, 2025, p.69). Esses números alarmantes evidenciam a extrema vulnerabilidade desse grupo e a necessidade urgente de políticas públicas eficazes para protegê-lo.

A transfobia no Brasil se revela em um ciclo brutal de exclusão e violência, que vai da rejeição social e econômica à agressão física e ao assassinato. Segundo o dossiê daAssociação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a transfobia no Brasil é atravessada por recortes de raça, gênero, classe e faixa etária: dentre as vítimas de 2024, 78% eram negras e 97% eram transfeminias transgênero com identidade feminina). Quanto ao recorte socioeconômico, a maior parte das vítimas eram pessoas em contexto de alta vulnerabilidade social que utilizam o trabalho sexual como fonte de renda (BENEVIDES, 2025, p.73), o que está diretamente relacionado com o fato de que 68% dos assassinatos ocorreram em local público, a maioria à noite (BENEVIDES, 2025, p.89).

Pessoas trans e travestis também enfrentam obstáculos sistêmicos para acessar direitos fundamentais, como educação, saúde e trabalho, sendo frequentemente empurradas para a marginalização e a informalidade. A ausência de políticas públicas eficazes, aliada ao preconceito estrutural enraizado na sociedade, reforça essa vulnerabilidade, tornando a sobrevivência uma luta diária contra a invisibilidade e a violência.

Segundo a To.gather apenas 0,38% dos postos de trabalho formais no país são ocupados por pessoas trans (Machado, Gonçalves e Alves, 2024). Além disso, dados do Infojobs aponta que 87% da população LGBTQIA+ identifica preconceitos velados como obstáculos ao crescimento profissional (RAMOS, 2024). Por isso, boa parte dessas pessoas acabam na informalidade ou acabam na prostituição.

A violência contra pessoas trans ocorre em um cenário alarmante de impunidade e negligência institucional, onde a falta de investigações rigorosas e a ineficácia dos sistemas policial e judicial não apenas perpetuam a injustiça, mas também reforçam a vulnerabilidade dessa população. A ausência de respostas firmes e comprometidas permite que crimes motivados pelo preconceito fiquem impunes, alimentando um ciclo contínuo de violência e marginalização.

Discursos transfóbicos e políticas institucionais fortalecem esse cenário, naturalizando o preconceito e criando um ambiente propício à violência. Dentro do sistema de justiça, muitas vítimas são desacreditadas e invisibilizadas, enquanto seus agressores, frequentemente amparados por discursos moralistas, são tratados como “cidadãos de bem”. Esse desequilíbrio não só dificulta a responsabilização criminal, mas também perpetua a impunidade, consolidando um ciclo contínuo de exclusão e brutalidade.

Leis de combate à transfobia

Uma das principais leis em vigor no Brasil que visa combater a violência contra pessoas trans é a Lei do Crime de Racismo (Lei nº 7.716/1989). Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF), através da ADO 26, tomou uma decisão histórica ao compreender a transfobia como uma forma de discriminação equiparada ao racismo, garantindo penas mais severas para os agressores. A aplicação dessa lei em casos de transfobia envia um claro sinal de que a sociedade brasileira não tolerará mais a violência e a discriminação contra pessoas trans.

Além disso, o entendimento dos Tribunais Superiores têm ampliado o alcance da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que originalmente visava proteger mulheres cisgênero, para incluir mulheres trans que sofrem violência doméstica e familiar. A decisão considera que a violência de gênero não se restringe à identidade biológica, mas se manifesta de diversas formas, atingindo também mulheres trans em suas relações afetivas e familiares, garantindo a elas o acesso a medidas protetivas, como afastamento do agressor, proibição de contato e acompanhamento psicossocial. Essa proteção é fundamental para garantir a segurança e a integridade física e emocional das vítimas, que muitas vezes enfrentam discriminação e violência em suas próprias casas.

Dados e denúncias como ferramentas de combate à transfobia

Os dados são ferramentas essenciais para o combate à transfobia porque permitem que sejam identificadas e compreendidas as dimensões do problema. Através da coleta e análise de dados, é possível ter uma visão clara da magnitude da violência e da discriminação contra as pessoas trans e travestis. Isso inclui informações sobre as taxas de homicídio, as formas de violência mais comuns, os grupos mais vulneráveis e as regiões mais afetadas.

Infelizmente, não há uma precisão dos dados reais da transfobia no Brasil, em decorrência de inúmeras limitações institucionais no país ao qual precarizam a difusão das informações. Dados sobre assassinatos de pessoas trans são inexatos e frequentemente manipulados, ocultando a real dimensão da violência contra pessoas trans. Nos registros oficiais, a identidade de gênero das vítimas é muitas vezes desrespeitada, dificultando a documentação e o combate efetivo a esses crimes. Mulheres trans e travestis, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade, como na prostituição, não apenas têm suas mortes negligenciadas, mas também são tratadas como suspeitas em vez de vítimas, reforçando a criminalização de suas existências.

A falta de denúncias é outro fator que mascara as reais estatísticas sobre crimes transfóbicos no Brasil. A subnotificação. O medo de novas agressões ou represálias, a falta de confiança nas autoridades policiais e judiciais, a falta de preparo de agentes de segurança para lidar com crimes de ódio discriminação institucional são alguns dos grandes responsáveis por desmotivar as denúncias.

Até mesmo instituições como a ANTRA enfrentam desafios significativos na coleta dados sobre a população trans , incluindo a falta de apoio financeiro para pesquisas, a ausência de dados governamentais confiáveis e a falta de investigação detalhada sobre crimes de ódio e violência contra pessoas trans por parte de órgãos de justiça. Essa lacuna de dados compromete a incidência do terceiro setor no combate à transfobia.

Dia Nacional da Visibilidade Trans – 29 de janeiro

O Dia Nacional da Visibilidade Trans, comemorado no dia 29 de janeiro, foi instituído em 2004 como um marco fundamental na luta pelo respeito e reconhecimento da dignidade das pessoas trans e travestis. A criação dessa data representa um avanço na busca pela equidade e tem como principal objetivo o combate à transfobia, promovendo conscientização e ações concretas para a garantia de direitos.

A importância do Dia Nacional da Visibilidade Trans vai além da denúncia da violência. A data também busca ampliar o debate sobre os desafios enfrentados por pessoas trans no acesso ao mercado de trabalho, à saúde e à educação.

Essencialidade da representatividade trans

É essencial fortalecer a representatividade trans nos espaços de decisão e políticas públicas. A participação de pessoas trans em cargos políticos, na mídia (inclusive, no cinema) e em instituições acadêmicas é um passo importante para a construção de uma sociedade mais inclusiva. Iniciativas como programas de inclusão profissional para pessoas trans e incentivos à educação são essenciais para romper barreiras estruturais e promover a equidade de oportunidades.

O Dia Nacional da Visibilidade Trans deve ser visto como um instrumento de resistência e conscientização, reforçando a necessidade da luta contínua por direitos fundamentais, como a vida, a saúde e o trabalho. Apenas por meio do engajamento coletivo e da implementação de políticas inclusivas será possível construir uma sociedade mais justa e igualitária para todas as pessoas, independentemente de sua identidade de gênero.

Para combater a transfobia, é essencial fortalecer políticas de inclusão e proteção, como a implementação de leis que garantam direitos e punam crimes de ódio, além de campanhas educativas para promover o respeito e a diversidade. Projetos de lei e iniciativas legislativas também precisam avançar para garantir a proteção dessa população e a efetivação de seus direitos.

Plataformas de apoio e organizações da sociedade civil têm desempenhado um papel fundamental na orientação sobre direitos e na assistência a vítimas de violência. Além disso, diversas organizações, como a Rede Nacional de Pessoas Trans, atuam na promoção de direitos, oferecendo suporte jurídico, psicológico e social para vítimas de violência e discriminação.

Somente com esforços concretos será possível reverter esse cenário de violência e oferecer às pessoas trans e travestis a dignidade e a segurança que lhes são de direito.

Por que Emilia Pérez não é uma boa representação das mulheres trans? Entenda as críticas

Atriz Karla Sofia Gascón na premiação de “Emilia Pérez” em Madrid, novembro de 2024.

O filme indicado ao Oscar tem recebido duras críticas, inclusive da comunidade trans. Tais críticas recaem sobre a forma como abordaram a transição de gênero, considerada insensível e superficial. Isso porque a motivação para a transição de gênero não pareceu recair sobre o sofrimento de uma pessoa trans enquanto alguém preso a uma apresentação social incompatível com sua identidade de gênero – ou seja, sem a liberdade de ser quem realmente é. Em vez disso, o chefe de cartel Manitas parece ver a transição de gênero meramente como uma oportunidade de recomeço e redenção moral.

Ademais, alguns espectadores consideraram que o processo de transição de gênero da personagem trouxe grande foco à genitália, ao abordar o procedimento cirúrgico de redesignação de gênero, não se aprofundando nos demais aspectos envolvidos na transição de gênero – a qual não se resume ao físico.

A transpóloga Renata Carvalho ressaltou o aspecto maniqueísta da narrativa do filme, que foi marcada por um claro contraste entre as duas fases de Emilia Pérez: o “super homem masculino e perigoso” e a “mulher doce e sensível” (FERRO, 2025).

Para saber mais, indicamos que assista ao review da icônica Isabela Boscov no YouTube: “Emilia Pérez”: bem que os mexicanos avisaram

Além dos problemas no enredo, a atriz principal Karla Sofia Gascón, também foi alvo de duras críticas, boa parte decorrente de seu comportamento na campanha para o Oscar e nas redes sociais. Os atos da atriz foram vistos pelo público como desleais com os seus concorrentes – inclusive, com a brasileira Fernanda Torres. O principal objeto das críticas é o teor preconceituoso de diversos tweets da atriz. Esses escândalos ameaçam manchar um momento histórico na representatividade trans no cinema.

É fato que as atitudes da atriz realmente são repreensíveis, mas, ainda assim, é inegável que as represálias também carregam, em certo ponto, traços de transfobia. Afinal, condenar atos é diferente de proferir ataques pessoais à identidade de gênero de alguém, além de ser relevante considerar comparativamente casos similares de muitos atores cis que cometeram atos igualmente condenáveis ou piores, mas que continuam com suas carreiras intactas.

Mesmo com tais problemáticas e apesar dos escândalos envolvendo a produção do filme, tal contexto conturbado não desmerece o fato de que se trata de uma mulher trans interpretada por uma mulher trans, a primeira a ser indicada ao Oscar. Essa conquista, ainda que sob tais circunstâncias, deve ser validada por abrir portas para mais reconhecimento de talentos trans e travestis no cinema.


Referências

BENEVIDES, Bruna. DOSSIÊ ASSASSINATOS E VIOLÊNCIAS CONTRA TRAVESTIS E TRANSEXUAIS BRASILEIRAS. Associação Nacional de Travestis e Transexuais, [s. l.], 30 nov. 2024. Disponível em: https://antrabrasil.org/wp-content/uploads/2024/01/dossieantra2024-web.pdf. Acesso em: 27 jan. 2025.

FERRO, Isabela. O Grito. Por que “Emilia Pérez” é repudiado pela comunidade trans? O Grito, 2025. Disponível em: Por que “Emilia Pérez” é repudiado pela comunidade trans? – Revista O Grito! — Jornalismo cultural que fala de tudo. Acesso em: 27 fev. 2025.

MACHADO, Lucas; GONÇALVES, Andressa; ALVES, Lage. G1.Estudo revela que 0,38% dos postos de trabalho no país são ocupados por pessoas trans. GloboNews Jornal das Dez, 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/globonews/jornal-das-dez/noticia/2024/05/15/estudo-revela-que-038percent-dos-postos-de-trabalho-no-pais-sao-ocupados-por-pessoas-trans.ghtml. Acesso em: 27 fev. 2025.

RAMOS, Giovanne. Cotidiano. Pesquisa: 87% dos LGBTQIAPN+ acreditam que preconceitos afetam crescimento profissional. Alma preta, 2024. Disponível em: Pesquisa: 87% dos LGBTQIAPN+ acreditam que preconceitos afetam crescimento profissional. Acesso em: 27 fev. 2025.

TRANS Murder Monitoring. [S. l.], 30 nov. 2024. Disponível em: https://transrespect.org/en/map/trans-murder-monitoring/. Acesso em: 27 jan. 2025.


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